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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O vôo da coruja



Ela arrancou os cabelos e fez uma festa
fúnebre com o seu destino; teve tudo nas mãos, mas desprezou sua sorte.O dia e a noite a partir daquele momento viraram uma só realidade sinistra. O que será de Constância?
Quatro anos antes
Arquimedes sempre foi assim, poucos  amigos, poucas palavras, muitos pensamentos. Seu jeito de ser rendiam as melhores notas na universidade, ele fazia engenharia civil, e, nesse contexto tudo ia bem, muito bem.
Com apenas 24 anos o estudante nota 10 se formou, como era bom aluno, rapidamente foi recebido no mercado de trabalho. Se quisesse não precisaria, mas Arquimedes resolveu morar só num apartamento num canto semi-nobre da cidade. O bairro era calmo. No terceiro andar, o engenheiro recém formado assistia aos noticiários da TV e a seguir respondia emails, os poucos que lhe enviavam.
Na internet, eis o paraíso! Arquimedes quase não mentia e também encontrava mulheres como ele, como poucas amizades e tímidas.
Quarta-feira, 22, ele resolveu ir ao trabalho de ônibus, queria ver gente nova, alegre, dar boas risadas por dentro, já que dificilmente suas reações podiam ser notadas.
Na periferia da cidade, em meio a vários barracos, não que ela morasse num, mas sua casa ficava no fim da rua, próxima a entrada da favela. Rolava um respeito entre os bandidos e quem era do bairro não podia ser ameaçado e nem roubado, se soubessem de algum bandidinho desavisado que ousasse fazer o contrário, este seria morto, sem dó nem piedade. Se fosse estuprador ou pedófilo, teria o pinto cortado e enfiado na boca ou no ânus, esse seria o castigo do pervertido. Neste clima de aparente paz que vivia Constância.
Na quarta-feira, ela foi ao centro da cidade, a parte financeira do centro para fazer uma faxina, embora já contasse com o segundo grau, foi apanhada de surpresa pelo desemprego. Ela era secretária de uma agencia de navegação em Santos. Foi demitida em razão da mudança do escritório central da empresa ter se mudado para o Rio de Janeiro, não deixou de receber nem hum tostão devido, porém ao acabar o seguro-desemprego, para não deixar seu filho Luan de 4 anos ficar sem seus alimentos preferidos, preferiu encarar a dificuldade e encarou o serviço de faxina, claro que temporariamente.
Quando desceu de seu coletivo que vinha da Zona Noroeste caminhou por alguns metros pela João Pessoa, avenida movimentada do centro, antes de ir para sua lida diária, ela precisava pagar uma conta nas Casas Bahia.
Um pouco mais a frente Arquimedes caminhava pelo centro em direção ao seu escritório, ou melhor, o escritório da firma onde tinha uma sala só sua na Praça José Bonifácio. O barulho do rufar das asas de pombos o distraiu e acabou se chocando com uma desconhecida, ele se desculpou e ela se desvencilhou do homem o mais rápido que pode.
Arquimedes pagou por descer depois de seu ponto só para poder caminhar alguns metros rumo ao seu trabalho. No choque com Constância, caiu num canto ao lado de uma lixeira um celular que era da faxineira. Arquimedes tentou devolvê-lo, mas a esta altura Constância já havia sumido e entrado na loja onde iria efetuar o pagamento de uma fatura. 
Não foi difícil para o engenheiro conseguir o número de Constância, ao estar com o celular da mulher com quem se chocara ele procurou um nome e:
- Alô! Marivalda?
- Sim, quem fala?
- Meu nome é Arquimedes
- Arqui o quê?
- Arquimedes! Eu encontrei o celular de sua amiga, e quero devolvê-lo
- Olha, ela trabalha no centro da cidade.
Após ter ouvido o endereço do local de trabalho da desconhecida resolveu ir até lá de imediato. Caminhou alguns metros, o dia estava apenas começando, o sol apontava seus primeiros raios e já anunciava que seria mais um dia quente de janeiro. Pessoas desconexas andavam pra lá e pra cá, parecendo sem rumo, mas cada uma delas estava indo a algum lugar, com seus medos, suas virtudes e os muitos defeitos inerentes a todos os seres humanos.
Um mendigo pedia algum trocado, poucos correspondiam, ônibus passavam lotados, outros já vazios pelas ruas do centro. O engenheiro tímido parou no lugar indicado pela amiga.
Arquimedes não sabia por que, mas algo muito grande ia acontecer depois que ele apertasse aquela campainha, o coração começou a palpitar e uma emoção forte invadiu sua vida. Apertou!
Não demorou para que Constância atendesse. Arquimedes não havia olhado o suficiente para aquela mulher que colidira com ele na avenida, agora, em sua frente ele só disse:
- Você deixou cair seu celular, quando eu trombei com você.
-Muito obrigado! Não quer tomar um café?
Porque não, pensou... Afinal o que tinha ele a perder?
Ela perguntou qual era o nome do seu mais novo amigo, o que fazia, onde morava, e ele parecia não se importar, fazia muito tempo que ninguém se importava com ele.
Lembrando-se repentinamente de seu compromisso, Arquimedes se despediu com pressa e se foi ao escritório que o aguardava. Claro que ele não era preso a horários fixos, mas convinha não abusar muito da sorte. No escritório não parava de pensar na mulher da trombada, havia algo nela que o encantava, ele nunca teve tanto assunto para falar antes.
O dia passou ligeiro e Constancia voltou para seu lugar. O dever lhe aguardava, depois que pegou seu filho na creche foi logo chegando e fazendo os  trabalhos domésticos. De vez em quando ainda é possível pegá-la em devaneios, lembrando-se de Augusto Nante, o rapaz que foi seu primeiro namorado e pai de seu filho Luan. Se pudesse voltar no tempo este seria um erro apagado. Com o seu novo jeito de ver a vida jamais se prestaria àquele papel novamente.
Luan era ao mesmo tempo uma recompensa e uma punição. Do relacionamento relâmpago com Augusto apenas lhe restou esta herança. Quando ele briga e resmunga ela se lembra do que fez de errado, quando ele diz; - mamãe eu te amo, tudo vira festa dentro do coração de Constância.
Ela também pensava no rapaz que acabara de conhecer:
_ Porque não me apaixonei por um homem desses, bem aparentado, honesto e justo, tive que me jogar nos braços do Augusto, aquele safado que não dá nada para o filho e quando soube que eu estava grávida me abandonou.
Constância parecia carecer de siso, falava sozinha reclamando da vida que ela pegou na prateleira do destino. Às vezes pensava que aquele rapaz que entrou em seu caminho seria a solução para este grande dilema que a cercava.
Com o nascimento de seu filho e o abandono de Augusto ainda na época de feto, Constancia teve que correr para conseguir se sustentar, como trabalhava ao saber de sua gravidez, procurou o mais rápido que pode sair da casa de sua mãe e ir para um canto seu, nem que fosse alugado. O emprego não era dos melhores, mas lhe dava uma certa paz financeira parqa poder esperar pelo nascimento de seu filho. Ao ser despedida a situação ficou realmente crítica e quase não dava para acabar o mês no azul.
No outro dia pela manhã, Constância acordou diferente, fez seu café, caprichou na maquiagem e partiu antes do sol para entregar seu filho na creche do bairro. Pegou o ônibus e foi ao centro da cidade. Esperava que o galante e tímido rapaz a encontrasse de alguma forma. Desceu no ponto de sempre e caminhou até a sua costumeira faxina.
O coração da mulher agora estava dividido, pensava em Algusto em flashs que ela mesmo procurava matar em sua mente e alma, afinal este era o motivo de todas as suas dores e lamúrias, ela os substituía pela imagem do engenheiro e pensava como seria sua vida se ele a quisesse.
Quando deu a hora do almoço e ela desceu do edifício para fazer sua refeição num restaurante próximo, mas alguém que ela não esperava apareceu., era o engenheiro que já estava roubando o seu coração:
- Não consegui almoçar sozinho e estava esperando você para me acompanhar. Posso?
- Claro, só que o lugar em que eu como é bem simples. Você não leva a mal?
Arquimedes nem respondeu, seu rosto vibrante já era a resposta.
No restaurante ele ouvia atentamente cada palavra de Constância e pouco falava, a não ser para confirmar alguma informação.
- Meu Deus! Eu sou tão chata NE, não deixo você falar.
- Não tenho muito a dizer, quando me dei por gente estava na faculdade e estudava sem parar, tudo o que o outros faziam eu evitava para me dar bem nos estudos, hoje estou aqui, porém paguei um preço caro, quase não fiz amigos.
- Você agora tem a mim! – Disse Constância.
Arquimedes pagou a conta e acompanhou a amiga até a entrada de seu serviço e foi embora pisando nas nuvens. No escritório continuou pensando na moça e ao sair resolveu ligar no celular que agora detinha o número. Constancia já estava saindo da sua lida diária quando recebeu a ligação que mudaria sua vida por completo a partir daquele momento, do outro lado o engenheiro apaixonado queria levá-la ao seu lar em seu carro.
Em menos de dois minutos ele estacionou próximo a entrada do local onde Constância trabalhava. Por entre os edifícios já se podia notar as ultimas pinceladas do sol se despedindo do dia. Aquela seria uma noite de lua cheia, a lua cheia dos apaixonados.
Ele fez questão de abrir a porta do carro e sua escolhida entrou. Ante de sair seu celular tocou. Era sua mãe reclamando sua falta à igreja no domingo passado. Querendo encurtar a conversa concordou com tudo e foi para a casa de sua, ou melhor, ainda não sua namorada.
Arquimedes pegou sua mais nova amiga e  a levou a sua casa, o caminho ela ladeado de edifícios que se intercalavam com uma ou outra casa. Ele seguiu pela Avenida e chegou ao lado da linha do trem, no momento em que os dois passavam o trem vinha no sentido contrário levando riquezas do país para o maior porto da América Latina.
Ao chegar na entrada da zona noroeste Constância que estava petrificada e com o coração quase pulando fora da boca ousou fazer uma pergunta:
- Arquimedes! Sou uma faxineira, mas tenho algum conhecimento. Você tem dinheiro e uma profissão glamorosa e altamente valorizada, diferente de mim que sou a ralé da sociedade. O que você viu em mim?
- Eu vi em você o que eu sempre quis ter... Não sei dizer... mas... Sei lá. Eu gosto de você!
Desse jeito, quase gaguejando, Arquimedes foi descortinando seu coração e revelando o que as estrelas e o por do sol que dividiam os limites do dia já pareciam anunciar, o amor bateu à porta.
- Nós vamos a minha casa, mas isto não significa que eu...
Neste momento o jovem engenheiro cortou.
- Calma eu não vou fazer nada de errado com você.
- Sabe, eu já fui enganada uma vez, eu não era nenhuma santa, o pai de meu filho não foi o meu primeiro homem, tive dois relacionamentos antes, mas foi com o augusto que eu tive o Luan, que é a paixão de minha vida. Não quero ser enganada de novo.
Constância anunciou que já estava chegando, e que era bom não ir até o fim da rua, Arquimedes fingiu não ouvi-la e a levou até sua casa. Ele esperou que Constância fosse até a creche, próxima à sua casa e depois entrou no seu simples barraco. Ela ofereceu um café, não demorou para que ela fizesse um bem quentinho. Ele provou e gostou não demorou muito no local, foi embora em seguida, tinha medo que alguma coisa mais intima viesse a acontecer.
Arquimedes era cristão e evangélico, sua família sempre ensinou a buscar uma garota que fosse dos quadros da igreja, mas como ele estava sempre em estudos até mesmo da igreja ele foi se afastando. Quando viu que a moça simples poderia se render a sua pouca conversa resolveu investir no relacionamento, mesmo sabendo que sua mãe não aceitaria o relacionamento de jeito algum.
Na volta da casa de Constância a mente de Arquimedes viajava, ele se lembrou de quando ia ao sítio com seu avô, como ele muito menino observava uma coruja que todos os dias vinha ao mesmo lugar. Seu avô parecia saber tudo sobre a ave, mas a qualidade que mais o impressionava era o giro de 270 graus que o bicho consegue fazer para se prevenir dos predadores.
Este giro que faz sobre seu próprio pescoço denota sabedoria, ela olha para todos os lados e dá a nítida impressão de que tudo vê e sabe. Mas porque será que estes pensamentos invadiram a cabeça de Arquimedes? Ele era meio supersticioso. Num ímpeto de adolescente ele resolveu voltar e chamar Constância para morar com ele, que se danasse toda as regras, ele iria seguir sua vida.
         Pegou o primeiro retorno fez a curva no seu veículo sedan preto e voltou com a decisão na ponta dos lábios. Para quê esperar? A mulher da sua vida estava a lhe esperando. Não houve uma decisão nos momentos anteriores porque o próprio Arquimedes estava em dúvida, mas agora não, ele já sabia dentro de seu coração que aquela era a mulher de sua vida.
         E o filho, Arqui, e o filho dela? Sua mente lhe pregava peças, para que ele  lembrasse do filho dela . Arqui, os outros fizeram e você vai assumir? Os pensamentos lhe convulsionaram as idéias, sua fluidez não era boa, mas ele precisava de uma mulher?
         O fato de Constância não ser mais virgem, não chegava a ser um obstáculo, pelo contrário, como  Arquimedes era bem tímido isso facilitaria na hora de fazer sexo com a mulher, pensava ele.
         Ele foi chegando próximo ao local onde ficava à casa de Constância, ela deveria estar assistindo TV acompanhando os telejornais ou assistindo alguma novela, quem sabe? Parece que seu carro diferenciado não mais causava espanto nos favelados ao redor da casa de seu grande amor.
         Antes de chegar, o engenheiro apaixonado passou numa bomboniere e comprou uma barra de chocolate que sua nova amiga adorava, recheado de nozes por dentro parecia uma predição  maligna do que estava prestes a acontecer.
         Ele desceu do carro e foi caminhando lentamente até chegar de surpresa na casa de seu grande amor. Ao se aproximar, já a uns 10 passos da casa de Constância um fato extremamente raro aconteceu por aquelas bandas. Uma coruja fez algumas manobras e resolvera pousar num telhado bem a sua frente.
Ele notou que uma moto 125cc estava á frente da casa de sua possível namorada, Arquimedes não ligou, podia ser alguém da vizinhança. Ele não quis fazer barulho, queria fazer uma surpresa.
Entrando devagar no pequeno lugar onde Constância se escondia um barulho podia ser ouvido vindo do quarto que só era guarnecido de um fina cortina plástica rosa, não havia crianças na casa, Luan estava na casa de sua vizinha, era uma espécie de código Morse.
Não dava mais para esperar, Arquimedes resolveu entrar no quarto de sua pretendida, mas algo saiu errado. Um gemido forte e estridente veio das entranhas do quarto em fogo, não estes que destroem tudo ao redor. Não! Um desses que faz o ser virar do avesso. É claro que para o rapaz, que não era trouxa, a sinfonia de gemidos e ais não soava bem e era um desafinamento só.
Quem seria o infeliz que estava por lá? Augusto, ele mesmo, Na hora “H”, Constancia dizia Gugu, não deixando a menor sombra de dúvida. Ao sair do local Arquimedes não fez questão de ser cauteloso, fechou a porta atrás de si com rigor e raiva. Constancia quis saber quem tentou invadir sua casa e quando chegou ao portão pode ver já a certa altura o carro de Arquimedes indo embora.
Dali em diante ela resolveu assumir uma vida a dois com o Augusto, já que elke era o pai de seu filho. Ele até quis contestar, mas o exame de DNA, não deixou dúvida, ele era o pai da criança.
Os dias se passaram e Constância descobriu que estava grávida, ela queria contar a novidade para Augusto, porém ela encontrou um bilhete num papel de pão dizendo num péssimo português:
- Sube que tu tá prenha, não quero saber de mais um bruguelo, resolvi vazá, não te preocupe que te mando uns trocados de vez em quando.
Enquanto digeria seu sofrimento, a televisão anunciava o casamento de Arquimedes e  Josefina Valente, uma das mais ricas empresarias  do agronegócio, ao ver as imagens da televisão Constancia começou a se descabelar e gritar, ela tinha tudo para ser feliz, mas escolheu o destino errado… Ela arrancou os cabelos e fez uma festa fúnebre com o seu destino; teve tudo nas mãos, mas desprezou sua sorte.
A coruja nunca mais pousou por lá.

Haroldo Ribeiro




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